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30

Jun 2015

Produção futurista no país – Entrevista com o Presidente da Embrapa (Em português)

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O Presidente da Embrapa afirma que o Brasil já avançou muito em termos de produtividade e sustentabilidade da agricultura e que há possibilidade de o desenvolvimento se manter com a incorporação de novas tecnologias e inovações. 

Coisas que hoje parecem ficção científica vão se tornar corriqueiras na paisagem rural brasileira nas próximas décadas: robôs para fazer análise de solos e veículos aéreos não tripulados (vants) para dispensar agrotóxicos e outros insumos com exatidão, apenas nas quantidades necessárias para cada pedacinho de chão, sem desperdício. 

É o que conta o agrônomo Mauricio Antônio Lopes, Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária-Embrapa.
Graças a esses avanços será possível ao Brasil se continuar se tornando cada vez mais sofisticado no campo. A tarefa não é fácil, exatamente porque já avançamos muito. A pesar de todo o destaque que a produção de grãos conquistou na economia brasileira, ela ocupa apenas 7% do território nacional, aproximadamente. Se ainda tivéssemos a produtividade de meados de século passado nas lavouras, seria preciso 10 vezes mais para a colheita atual, conta.
Daqui para frente, os ganhos não serão tão grandes, mas vão continuar. 

Com o conhecimento que já existe, é possível ganhar muita eficiência em algumas culturas como o milho e, sobretudo, transformar pastos degradados em áreas de cultivo, o que permitiria dobrar a área plantada. Isso vai acontecer junto das novas etapas da evolução tecnológica e gerencial do campo. 

Doutor em genética molecular, Lopes acredita que os organismos modificados vão ter participação central nesse processo. A seguir, os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Correio Braziliense. 

Qual a dimensão do avanço da agricultura brasileiras nas últimas décadas? 
Mauricio Lopes: O avanço é muito expressivo: a agricultura incorporou tecnologia, ampliou área e ganhou capacidade exportadora. Se tivéssemos a produtividade dos anos 1950, precisaríamos de 600 milhões de hectares para produzir o mesmo que produzimos home em 60 milhões de hectares. 

Somos líderes? 
Mauricio Lopes: Em soja, somos líderes em produtividade junto com os norte-americanos, disputando ombro a ombro. Em muitos outros cultivos ainda temos uma margem gigantesca de aumento de produtividade. O milho, por exemplo. Em alguns lugares, se produz 11 toneladas por hectare; em outros, 2,5 toneladas. A produção bovina é outro caso. 

Continuaremos crescendo? 
Mauricio Lopes: Certamente, não teremos nos próximos anos uma ampliação tão significativa da área, em função do novo código florestal, que limita a ampliação da agricultura em área e coloca um desafio para a agricultura como um todo no sentido do desenvolvimento vertical da produção, com mais eficiência, com sustentabilidade, um tema muito importante na agenda da sociedade. 

Como se pode crescer verticalmente? 
Mauricio Lopes: O Brasil tem 50 milhões a 60 milhões de hectares de pastos degradados, áreas que foram abertas há muito tempo, nos anos 1970, 1980. Essas áreas deverão ser incorporadas ao processo de produção, permitindo ao Brasil seguir produzindo ganhos contínuos sem a necessidade de desmatar. A produção de carne é uma forma de agregar valor à produção de grãos. O Brasil deverá fortalecer sua posição de provedor de proteína animal. Um sinal é a gradual abertura do mercado chinês. E a agricultura entrará em vertentes novas. Nós da pesquisa temos grandes expectativas com a indústria da biomassa e novos produtos da química verde, incluindo polímeros. 

Como produzir de forma sustentável? 
Mauricio Lopes: A Embrapa tem mostrado que é perfeitamente possível plantar uma lavoura de soja em outubro, colher em janeiro, plantar uma segunda lavora, de milho, junto do pasto, mais profundamente. Quando se colhe o milho em maio, já se pode vir com os bovinos, fechando-se o ciclo em outubro, quando volta a soja. É possível também colocar nesse processo florestas, um forte incorporador de carbono, e também uma poupança para o produtor, com eucalipto, teca, palmáceas. O componente arbóreo contribui para o bem-estar animal. É possível que os produtos sejam certificados também com base nesse critério. Há uma preocupação crescente dos consumidores em relação aos processos produtivos. Além disso, é uma agricultura mais resiliente, em vez de fazer investimento em uma produção só, o produtor estará mais apto de lidar com variações muito bruscas nos preços dos produtos. 

Os ganhos da produtividade virão mais da incorporação de tecnologia ou de inovação? 
Mauricio Lopes: As duas coisas. Na pecuária, há tecnologias que já estão prontas para a recuperação de pastagens. A Embrapa é a principal geradora de novas forragens para as diferentes regiões do Brasil. Temos muita capacidade na área de genética e reprodução, incluindo a fertilização in vitro. Favorece uma genética mais apurada, tanto para carne quanto para leite. A clonagem em bovinos permite uma genética mais aprimorada, com custos que deverão cair. Temos as inovações da agricultura de precisão. Hoje, nos fertilizamos e fazemos a correção do solo de uma área de produção pela média. Isso tende a mudar. Estão surgindo maquinas que permitem amostrar o solo em espaços cada vez menores. 

Em que escala? 
Mauricio Lopes: Em vez de uma pulverização massiva de 10 hectares, já há tecnologia para fazer uma grade com aplicação diferenciada a cada 20 metros. Há os veículos aéreos não tripulados (vants). É uma tecnologia que nos permite, por exemplo, visualizar grandes áreas, usando câmeras ou sensores, registrando se há deficiência de agua ou uma praga, também nos permitindo produzir mapas que nos dirão como aplicar defensivos ou água de uma forma muito mais eficiente. Será cada vez mais aplicada nos próximos anos. Já existem também robôs que fazem avaliação. Uma outra tendência forte para futuro são tecnologias gerenciais. No passado, a preocupação era com a produção física. Hoje, há preocupação com vários fatores. Colocamos ênfase no desenvolvimento de tecnologia móvel para entregar conhecimento aos produtores, por meio de aplicativos. 

Propriedade Intelectual pode ser um problema para os agricultores brasileiros? 
Mauricio Lopes: Sim. É razoável que uma empresa que desenvolve inovação tenha o direito de explorar isso na forma de patentes, via cobrança de royalties. A Embrapa usa isso. Mas temos de ter determinados cuidados. Temos preocupação com a concentração excessiva em alguns setores, em especial o setor de sementes e biotecnologia. Tivermos uma participação muito forte nesse mercado até o início da década passada. Em função da lei de patentes, da lei de proteção de cultivares, isso atraiu muitas empresas para o mercado brasileiro. Os organismos geneticamente modificados são uma vertente tecnológica que exige um investimento muito alto. Os governos têm se retraído desse esforço de inovação sob o argumento de que nós temos empresas competentes. Felizmente isso não está acontecendo no Brasil, o que é uma vantagem para os produtores brasileiros. A Embrapa tem 80 programas de melhoramento genético. Talvez seja a instituição pública com o maior número desses programas no mundo. Muitos pensam que a Embrapa só faz soja, milho, trigo e algodão. Não. Tem programas de melhoramento de forrageiras, banana, mandioca, feijão, açaí, café. A gente não quer perder espaço, porque consideramos que é quase um trabalho de segurança nacional.
Os organismos geneticamente modificados têm restrição na Europa.

Isso vai mudar? 
Mauricio Lopes: É uma escolha dos europeus. Acho que o Brasil fez a opção correta e pragmática. Desde meados da década passada, temos uma legislação de biossegurança que e extremamente rigorosa e vem sendo cumprida à risca. Exige das organizações que manuseiam essas tecnologias critérios rígidos. Precisamos pensar numa agricultura que faça uso mais inteligente dos nossos recursos naturais, do solo, do ar, da água, das áreas florestadas. O Brasil tem um espaço muito significativo do seu território com florestas naturais. Nós queremos conservar esses recursos, manejar de forma sustentável. A biotecnologia e um elemento e deverá ser acrescido de outros. A nanociência, fazer inovação na escala do bilionésimo do metro, com a possibilidade de produzir novos materiais, sensores, também vão suscitar polemica.

Isso vai crescer no Brasil? 
Mauricio Lopes: Os Estados Unidos são o país mais aberto à incorporação de tecnologia na agricultura. A participação brasileira será crescente. Nós vimos agora a aprovação do eucalipto transgênico. Não há em outro país uma arvore geneticamente modificada. E Embrapa teve a aprovação do primeiro feijão geneticamente modificado, que irá ao mercado no próximo ano. Será o primeiro feijão no mundo resistente ao mosaico dourado. É um vírus transmitido pela mosca branca, que se multiplica em uma velocidade muito grande, o que exige uma quantidade massiva de inseticida. O que a gente fez foi modificar a planta com um gene que inviabiliza a reprodução do vírus. Não há rastro: pode se vasculhar aquela planta de cima abaixo e não vão se encontrar nenhum rastro. É o mesmíssimo feijão. A transgenia permite que a soja, a cana-de-açúcar, e o milho façam uso mais eficiente da água disponível no solo, para que se possa ter produtividade elevada mesmo em situações não muito favoráveis. 

O Brasil vai aumentar a presença no mundo? 
Mauricio Lopes: Sim. Grande parte da população do mundo está concentrada em uma região do planeta que não tem como ampliar sua capacidade de produção de alimentos e fibra, a Ásia. Não há mais espaço físico. Mas a população vai continuar crescendo lá e na África. Mas a África não conseguira promover uma revolução agrícola a curto prazo porque há questões institucionais e políticas. Nós já somos grandes provedores hoje e amanhã seremos cada vez mais eficientes. A própria FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) nos diz isso: Brasil, eleve sua produção em pelo menos 40% até 2050, senão a conta não fecha. 

E nós conseguiremos? 
Mauricio Lopes: Não tenho dúvida de que conseguiremos até ultrapassar, se as condições forem adequadas. O Brasil hoje, já e considerado uma potência agrícola, até mesmo por questões geopolíticas. Alimento está muito relacionado com paz. Essa é uma discussão política muito importante para o Brasil.

Fonte:  Jornal Correio Braziliense – Edição de 29 de junho de 2015


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