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Nov 2017

RINOCERONTE II – O Rinoceronte-negro da África Ocidental foi declarado oficialmente extinto! (En portugués)

Publicado por

Dr. Afonso Celso Candeira Valois, 
Pesquisador Aposentado da Embrapa
Uma grande lástima, essa perda anunciada pela International Union for Conservation of Nature, do Diceros bicornis L., nativo do África do Sul, Angola, Camarões, Namíbia, Quênia, Tanzânia, e Zimbábue, e encontrado pela última vez na natureza em 2006. Esta espécie ainda possuía em torno de 100 indivíduos na década de 1980, porém a caça predatória o levou à extinção “debaixo do nosso nariz”. E assim caminha a natureza, dia a dia sendo predada pelo egoísmo da humanidade, com elevado grau de hipocrisia e irresponsabilidade!
Recentemente estive em um importante evento em Brasília-DF, no dia 19/09/2017, sobre o futuro da conservação dos recursos genéticos vegetais, quando um excelente pesquisador, indagado por mim, infelizmente em uma tremenda falta de visão estratégica considerou não ser importante efetuar estudos com marcadores moleculares SNPs na ameaçada espécie Sumaúma (Ceiba pentandra (L.) Gertn.).
Não só por isso, mas esta planta amazônica colocada entre aquelas que alcançam os maiores desenvolvimentos em altura e diâmetro do fuste no mundo, talvez por isso mesmo esteja em sério perigo de extinção, como muitas outras. Se algo a mais não for efetuado, essa importante espécie poderá seguir o duro caminho do Rinoceronte! Conservar, caracterizar, avaliar, documentar e informar são algumas das prioridades!
Quando eu lecionava no CEST-UEA, em Tefé (AM), considerou-se a Sumaúma como o símbolo em uma das semanas sobre o meio ambiente, com a figura desta planta estampada em todas as camisas dos participantes. Isso foi feito com o fito de chamar a atenção para a necessidade imperiosa da conservação in situ e ex situ da espécie e efetuação de atividades sustentáveis. A Sumaúma tem uma enorme importância no bombeamento de água para o meio ambiente em forma de vapor pela sugamento do precioso líquido do lençol freático pelas suas profundas raízes, além da inusitada utilidade de servir de “telefone sem fio” para os indígenas no seio das florestas, pois devido à enorme altura e formação de raízes superficiais em sapopema, a comunicação entre os povos é feita através de toques característicos. Mas devido à pouca densidade da madeira e grande desenvolvimento do fuste em diâmetro, na Amazônia é cometida a atrocidade de abater os genótipos, retirar as toras de madeira e utilizá-las como pisos dos flutuantes construídos em meio aos rios- nefasta pegada ecológica! No entanto, ainda há esperança, remetendo para a premente realização de muito esforço e ação!
O Rinoceronte-negro já foi, “agradecendo e pedindo desculpas aos humanos pelo espaço que ocupou na terra por longos anos”! Que vergonha!
Precisa-se mudar urgentemente esse tipo de hábito, atitude, postura, cultura, costume e conduta de nós humanos de colocar em um segundo ou terceiro plano aquilo que a mãe natureza nos doou de graça, ou seja, as plantas, animais, microrganismos e o meio ambiente, que inclusive sustentam as nossas vidas! De nada adianta elaborar planos, programas e projetos sobre a coleta/intercâmbio, conservação, caracterização, avaliação, documentação, informatização, informação e uso racional de recursos genéticos, além de organizar mega eventos, se não houver a predisposição, perseverança, persistência, determinação e visão estratégica de bem fazê-los. Para recordar: A natureza não sabe reclamar, mas sabe punir!
Certa vez deixei para uma excelente Unidade de Pesquisa a seguinte frase: “Preservando o passado, antecipando o futuro”. Tem enorme significado, pois traz o futuro, que às vezes não chega, para o presente! Este fato continua sendo de extrema urgência, pois as espécies estão expostas à erosão genética e extinção (caso do Rinoceronte); perda e fragmentação de habitats; introdução de espécies exóticas danosas; exploração predatória de recursos naturais (forte pegada ecológica); mudanças climáticas (acredita-se que no futuro próximo essas mudanças representarão as principais causas da perda de biodiversidade no planeta, cujo futuro (previsto) já está no presente!), enchentes descontroladas, fenômenos naturais destruidores etc. Para lembrar, o evento de Nagoya (Japão), organizado pela CDB em 2010, reconheceu oficialmente como ameaçadas de extinção 472 espécies da flora e 627 espécies da fauna!
É louvável o evento recentemente efetuado no Nordeste Brasileiro que considerou a influência danosa da mudança climática sobre os recursos genéticos. Lembram-se daquele Tsuname que ocorreu na Malásia? Por certo os dendezeiros (Elaeis guineensis Jacq.) e seus insetos benéficos polinizadores (esses amigos ocultos), bem como outras espécies foram seriamente prejudicados!
Não pretendia escrever tanto neste desabafo, suscitado pela nefasta extinção do Rinoceronte e pela resposta provavelmente impensada do colega palestrante, ao que me referi anteriormente, mas ainda gostaria de citar uma outra frase de um renomado pesquisador dessa mesma competente Unidade de Pesquisa, que infelizmente não mais se encontra entre nós, ou seja: “O lixo de hoje pode ser a mina de amanhã”, se referindo à nobreza técnico-científica institucional e à visão estratégica de conservar, caracterizar, avaliar e utilizar os recursos genéticos de forma sustentável, sem solução de continuidade. No passado, considerei esses belos dizeres tão importantes que, na qualidade de dirigente máximo daquela instituição, os coloquei em uma placa comemorativa, e hoje servem como uma das bases para este texto.
Como parte do meu raciocínio, ainda acrescento mais dois exemplos. O primeiro refere-se à uma palestra que proferi em Braga (Portugal) ao inaugurar as novas instalações do banco de germoplasma de milho daquele país, quando tive o enorme prazer de ouvir de um dos integrantes da seleta plateia, a seguinte frase: “Quem tem germoplasma tem poder!” De retorno ao Brasil tive o privilégio de introduzir e horizontalizar o seu uso, acrescentando: “para assegurar a alimentação do seu povo e compartilhar com outros, além de salvaguardar as espécies!” Se o Rinoceronte extinto tivesse sido conservado por certo a sua malfadada extinção não aconteceria. Pensem nisso! Vamos todos atuar em conjunto para o benefício da humanidade, das plantas, dos animais, dos microrganismos e do meio ambiente! Precisa-se restringir ao máximo, o egoísmo, hipocrisia, oportunismo e ganância ainda bastante presentes na face da terra!
O segundo exemplo ocorreu em Manaus (AM), quando organizei uma equipe de coleta de germoplasma para ir ao seringal nativo de Rondônia especificamente para retirar vergônteas de duas seringueiras que produziam nove e dez litros de látex por sangria, respectivamente. Essas plantas estavam em grande perigo de ser derrubadas pela nefasta ganância de madeireiros. Resultado: Após a coleta do germoplasma aqueles dois importantes genótipos vieram realmente ao chão por ação impiedosa do comando da moto-serra, mas já estavam perfeitamente clonados em jardins especializados da Embrapa e atualmente estão do domínio público na qualidade de bons clones! Tenho escrito em outras oportunidades que não existe risco zero, mas que este pode ser avaliado, gerenciado e comunicado. Foi justamente a comunicação que me fez organizar a expedição científica de coletra e salvar as duas citadas seringueiras, através do fenômeno da clonagem!
Concluo que podemos e devemos conservar nossos recursos genéticos (microrganismos, animais e vegetais), quer seja in situ quer seja ex situ, pois temos a tecnologia apropriada e o tempo necessário para salvar muito do que ainda temos, para o benefício de todos no presente e futuro!
Lembrando que: “a extinção é para sempre!”


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