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Abr 2018

O Albinismo e seus Mistérios (En portugués)

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Por Afonso Celso Candeira Valois, Engenheiro Agrônomo, Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Genética, Melhoramento de Plantas e Biotecnologia, Pesquisador Aposentado da Embrapa.

No Programa “Domingo Show” de 11/09/2016, da Rede Record de Televisão, foi mostrada uma excelente reportagem envolvendo uma mulher negra que foi casada com um homem também negro, cuja história se passou na África do Sul e no Brasil. Desse matrimônio, primeiramente nasceu uma menina negra, atualmente com 13 anos que sonha em ser modelo, sendo que após dois anos houve o nascimento de duas irmãs gêmeas, que no entanto ambas são albinas. Diante desse fato inusitado, o marido achou surreal devido ele e sua esposa serem negros e terem duas filhas brancas, louras, de olhos verdes e pestanas claras. Essa desconfiança de adultério foi tão grande no seio da família que cerca de quatro anos após o nascimento das gêmeas, os dois resolveram se separar, ficando a mãe e suas três belas filhas totalmente desamparadas, o que deu margem à reportagem acima referida. As quatro foram muito bem distinguidas no programa, receberam muitos presentes, visitaram lojas e pessoas de realce, bem como, tiveram uma visão estratégica e gestão operacional de melhoria substancial da qualidade de vida.

No referente ao albinismo propriamente dito, o apresentador ainda fez referência à falta de melanina na pele das albinas e à lacuna de conhecimento do marido sobre o fenômeno que o levou à tamanha estupidez, mas deixou de fazer menção ao fundamento genético causador do aparecimento do albinismo!

Em vista do exposto resolvi republicar um artigo que elaborei há algum tempo que retrata a depressão endogâmica causada pela homozigose excessiva de genes recessivos que redunda em defeitos genéticos, que no caso do albinismo geralmente tem como causa o acasalamento entre parentes próximos, como primos.

A reportagem da TV Record não informou se os pais das jovens albinas eram parentes próximos, mas a julgar pelas condições em que os mesmos se relacionavam na África, namôro e subsequente casamento e vinda para o Brasil, talvez sejam parentes.

O artigo que publiquei anteriormente encontra-se a seguir, com a esperança que possa melhor esclarecer esse fenômeno do albinismo em humanos, sendo que estão expostos exemplos ocorridos no Estado do Amazonas e no Estado do Maranhão.

Notem que no Punã existia a mesma desconfiança entre casais, que pode ter sido desfeita após as minhas singelas explicações técnicas.
Espero que os nobres leitores interessados entendam o desvendamento desse mistério, tendo uma boa leitura! Aguardo comentários!

A ENDOGAMIA DEPRESSIVA

Geralmente as pessoas à medida que vão ficando com DNA (Data Natalícia Avançada) viram contadoras de histórias com o fito de transferir conhecimento e experiência (competência) aos devotados leitores interessados. Em artigo anterior tentei fazer uma correlação entre a religião e o comportamento de pessoas, o que foi bem curtido, demonstrando a curiosidade das pessoas amigas. No presente, o objetivo principal é apresentar outro exemplo bem pertinente, envolvendo um bom acontecimento de caso envolvendo a religião, ocorrido na Amazônia, mas que pode ser extrapolado para outras regiões do país. Mas, antes de entrar no tema propriamente dito devo esclarecer sobre o motivo do título: A Endogamia Depressiva.

Como todos sabem, a endogamia ou consanguinidade ocorre quando vários locos ao longo da maravilhosa fita do DNA (desta vez, Ácido Desoxirribonucleico) estão em homozigose, permitindo assim que, além dos genes dominantes, muitos outros genes sejam recessivos nessa condição homozigótica. Quando isso acontece, como exemplo, em plantas alógamas (de cruzamento), os genótipos oriundos de autofecundações gradativamente vão tendo divergências genéticas que são aproveitadas em programas de melhoramento genético até a um determinado número de autofecundações (por exemplo, até vinte), a partir do qual os genes vão ficando em excessiva homozigose, aparecendo aí os genes recessivos deletérios, promovendo a redução de vigor e alterações genéticas indesejáveis. Em plantas, a homozigose proveitosa vem sendo explorada na obtenção do vigor do híbrido, como os exemplos de Jones em 1918, trabalhando com milho, além de outros memoráveis resultados como os do Professor Dr. Ernesto Paterniani (já falecido- aqui presta-se uma justa homenagem póstuma) e de outros excelentes profissionais do Brasil, na criação do milho híbrido e de outras espécies, pelo uso de linhagens adequadas oriundas das autofecundações. Essa variabilidade genética também pode ser explorada em híbridos de variedades em cruzamentos controlados ou permitindo a troca de genes ao acaso em metodologia de criação de compostos sintéticos. Nestes últimos, a referência vai para aquele que consegui em Manaus (AM), no tempo em que trabalhava no IPEAAOc, instituto do Ex-DNPEA que deu origem à Embrapa Amazônia Ocidental, quando peguei seis variedades de milho apropriadas e formei o Composto Manaus, com excelentes características genotípicas e fenotípicas para a produção de grãos e tolerância ambiental.

E para o caso onde há excesso de genes recessivos deletérios? Quais são as consequências? Para o caso de plantas alógamas, isso acontece, no caso, quando há exagerado número de autofecundações, deixando os genótipos com pouco vigor, alterações genéticas indesejáveis na penetrância e expressividade de genes etc. Para efeito didático, chama-se endogamia para o caso de plantas e consanguinidade quando a referência for para animais racionais ou irracionais. No referente aos seres humanos, deixa-se de aprofundar nos exemplos por motivos ligados à bioética! Mas, onde se quer chegar, tendo a religião como principal ponto de referência? É o que está apresentado nas linhas subsequentes.

Para fazer justiça a um sucesso religioso foi aquilo que considerei no Punã (distrito do município de Uarini- Amazonas). Quando professor na Universidade do Estado do Amazonas- Centro de Estudos Superiores de Tefé (UEA/CEST), após a aposentadoria na Embrapa, fui ao Punã em duas oportunidades para participar de oficinas técnicas e apresentar palestras naquele lindo rincão do Médio Solimões. Na primeira vez verifiquei um razoável número de pessoas com deficiência física, como aliás ocorre em comunidades encravadas no seio da imensa floresta amazônica. Essas deficiências eram principalmente genéticas, devido ao fenômeno da consanguinidade motivada pelo acasalamento entre parentes próximos, como primos. Na formação das comunidades geralmente vai um casal para um determinado local previamente escolhido, que depois convida irmãos e outros parentes próximos, e assim por diante, e com isso a comunidade vai sendo formada e aumentada, tendo como base a mesma base genética, ocorrendo assim o isolamento geográfico e mecanismo de isolamento reprodutivo pela manutenção do pequeno tamanho da população (efeito fundador) por várias gerações. Foi Isso que ocorreu no Punã, inclusive com a presença marcante de pessoas albinas. Interessante que após eu explicar o motivo pelo qual isso acontecia no Punã levou ao alívio de várias pessoas daquela comunidade, pois antes não podiam imaginar como duas pessoas de cor escura tinham filhos de pele branca, cabelos loiros e olhos claros. Diante daquele mistério para elas indagavam entre si: será que houve adultério? Após detectar in loco porque isso acontecia apareceu a minha alternativa para tentar mitigar ou mesmo evitar esse mal de forma premonitória. Verifiquei que na comunidade existia uma única Igreja (Protestante), cujo Pastor, pessoa muito bem quista na localidade, promovia reuniões e cultos todos os domingos. Procurei esse Pastor, que aliás teve boa participação e demonstrado curiosidade naqueles eventos, expliquei ao mesmo porque aquelas alterações genéticas ocorriam e solicitei para ele propalar o fato repetidamente em todos os cultos e demais eventos religiosos, para evitar o acasalamento entre pessoas parentes próximos. Isso foi feito com maestria, obtendo sucesso! Em Tefé, no bairro do abial, também verifiquei pessoas albinas advindas dessa falta de atenção por ocasião da atividade sexual! Esse mesmo fenômeno, desta feita envolvendo uma inteira comunidade albina, ocorre na região dos Lençóis Maranhenses, onde inclusive as pessoas evitam tomar os raios solares em excesso, para controlar o aparecimento de câncer de pele, bem como preferem se deslocar no período da noite. Olhando-se o semblante dos moradores daquela comunidade facilmente depreende-se que em sua essência, originalmente, antes era uma população negra, talvez escravos fugidos, de base genética estreita devido ao pequeno tamanho da população que ali se estabeleceu. Cheguei a sugerir a colegas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) a fazerem estudos genéticos sobre essa comunidade, o que foi feito com pleno sucesso e posteriormente publicado. Também aproveitei esse exemplo do Punã para difundi-lo nos cursos de genética que ministrava na UEA/CEST, solicitando aos alunos para fazerem o mesmo nos municípios vizinhos (cerca de seis) de onde eram provenientes!

Grande significado: Uso da religião para o bem! Fica também a orientação para que na Amazônia seja motivo de grande atenção o processo de formação de novas comunidades para evitar o efeito depressivo da consanguinidade pelo acasalamento entre parentes próximos!



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