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24

Nov 2017

Excelente Exemplos de Plantas Alimenticias Não Convencionais – PANC (En Portugués)

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Artigo compilado e ampliado pelo Dr. Afonso Celso Candeira Valois
Se você já bebeu um suco de ubajaí, degustou um araçá-piranga ou já provou uma cereja-do-rio-grande, parabéns. É um dos felizardos que conhece estas frutas raras da Mata Atlântica, com efeitos tão positivos para a saúde que cientistas brasileiros apostam nelas como candidatas a novas “superfrutas” da moda.
Pesquisas feitas em parceria pela Unicamp e pela USP, determinaram que cinco espécies nativas do Brasil são ricas em antioxidantes e têm alta eficiência anti-inflamatória no organismo – comparável à de estrelas do mercado de alimentos saudáveis, como o açaí e as frutas vermelhas tradicionais (morango, mirtilo, amora e framboesa).
Mas para conseguir estudar o araçá-piranga (E. leitonii), a cereja-do-rio-grande (E. involucrata), a grumixama (E. brasiliensis), o ubajaí (E. myrcianthes) e o bacupari-mirim (Garcinia brasiliensis), os pesquisadores precisaram da ajuda de “colecionadores de frutas” do interior de São Paulo, já que elas são tão pouco conhecidas e consumidas que, em alguns casos, estão ameaçadas de extinção.
Um deles é o “frutólogo” Helton Josué Muniz, que cultiva quase 1,4 mil espécies de frutas raras e exóticas em sua fazenda em Campina do Monte Alegre, à oeste da capital paulista.
“Queríamos trabalhar com frutas nativas e foi uma dificuldade encontrar onde elas estavam plantadas”, disse à BBC Brasil Severino Matiasde Alencar, do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Escola Superior de Agricultura (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), um dos autores do estudo.
“Hoje, o mercado para este tipo de superalimentos é o que mais cresce no mundo, principalmente o americano. E os pesquisadores de lá ficam assustados quando veem que a gente tem uma grande biodiversidade de frutas que poderíamos apresentar ao mundo e ainda não apresentamos.”
Uma análise das folhas, das sementes e dos frutos destas cinco espécies – que ocorrem em toda a Mata Atlântica, mas têm sido mais encontradas no Sudeste e no Sul – mostrou que elas podem ser consideradas “alimentos funcionais”, também conhecidos como superalimentos.
Além de altos teores de substâncias antioxidantes, elas também possuem ação anti-inflamatória no organismo.
“Os alimentos funcionais são aqueles que, além da função nutritiva, podem ajudar a prevenir doenças crônicas, como problemas do coração, diabetes e câncer”, disse à BBC Brasil Pedro Rosalen, da Faculdade de Odontologia da Unicamp em Piracicaba, também autor do estudo.
Estudos sobre as espécies, financiados pela Fapesp, já foram publicados nas revistas científicas Plos One e Journal of Functional Foods, incluindo o mistério da erva romana mais valiosa que o ouro, mas que sumiu sem deixar rastros!
‘Novo açaí’
O principal objetivo da pesquisa com novas frutas, segundo Rosalen, era encontrar “novos açaís” – frutas nativas e altamente nutritivas que pudessem trazer resultados científicos e econômicos para o Brasil.
“Nosso alvo eram as propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias por que esta é uma grande necessidade da indústria farmacêutica. No futuro, queremos isolar e identificar as moléculas ativas que fazem parte dessas frutas, que podem se tornar medicamentos importantes”, afirma.
Substâncias antioxidantes inibem a formação de radicais livres – moléculas reativas de oxigênio que são geradas naturalmente pelo organismo ou estimuladas por fatores externos, num processo que causa envelhecimento e morte celular.
Ao longo do tempo, o bombardeio de radicais livres em algumas estruturas orgânicas pode contribuir para doenças como câncer, e artrite. O corpo humano produz antioxidantes naturais, mas não o suficiente para neutralizar completamente o processo.
A ação dos radicais livres também está relacionada com inflamações no organismo – daí a importância de substâncias que também atuem como anti-inflamatórios, explica Rosalen.
“Quando há uma inflamação, o corpo libera uma série de sinalizadores que atraem as células brancas do sangue para fazer a defesa. Mas geralmente essa migração é exacerbada e aumenta o processo inflamatório, produzindo mais destruição.”
“Descobrimos que as substâncias químicas presentes nas frutas impedem que uma quantidade exagerada de células de defesa cheguem ao local da inflamação. Por conta disso, temos um processo mais controlado. Não é que o corpo se defende menos, mas se defende na medida certa”, diz.
De acordo com os pesquisadores, a ação das frutas – se consumidas frequentemente – pode retardar os processos inflamatórios que causam doenças como diabetes, arteriosclerose e mal de Alzheimer, por exemplo.
‘Berries’ brasileiras
Segundo Alencar e Rosalen, a grumixama e a cereja-do-rio-grande, frutas pequenas e vermelhas, se destacam em relação às demais nas propriedades antioxidantes.
“Elas são como berries (como algumas frutas silvestres vermelhas são chamadas em inglês) brasileiras. São fusões da cereja com a amora. Doces, mas com um teor de ácido ideal. São minhas preferidas”, diz Severino Alencar.
A cor vermelha ou arroxeada das frutas, explica, é dada por um grupo de compostos, as antocianinas, cuja presença normalmente indica a eficiência no combate aos radicais livres.
Já o araçá-piranga – amarelado e mais ácido que os demais – tem o maior potencial anti-inflamatório, de acordo com Pedro Rosalen. “Ele reduziu a migração de células de defesa em 62%, um índice muito alto para uma fruta.”
As cinco espécies estudadas são consideradas raras atualmente, e o araçá-piranga é considerado ameaçado de extinção. Há outras 14 em estudo pela equipe coordenada pelos pesquisadores.
“Poucas das frutas que consumimos hoje são nativas do Brasil: abacaxi, maracujá, caju e goiaba. E a Mata Atlântica já está no limiar do seu equilíbrio ecológico. É urgente estudarmos as frutas deste e de outros biomas”, justifica Alencar.
Agora, a equipe de cientistas quer expandir o cultivo das cinco frutas entre pequenos agricultores e, com mais ambição, para o agronegócio. Para isso,pretendem se dedicar ao melhoramento genético das espécies.
“Compramos maçãs iguaizinhas umas às outras porque em determinado momento foi feita a domesticação da fruta. Isso é necessário para que, no futuro, elas sejam produzidas com qualidade e em quantidade.”
Procura
Para aumentar o número de produtores das novas superfrutas, os cientistas acreditam que a parceria com o Sítio Frutas Raras, do colecionador Helton Muniz, e com outro sítio no interior de São Paulo, é essencial.
“Depois que apresentamos as pesquisas, várias pessoas já nos ligaram perguntando onde podem encontrar essas frutas para consumir. Elas ainda têm um mercado muito pequeno, a ciência tem que mostrar que elas têm um diferencial”, diz Alencar.
Muniz, cujo trabalho já foi mostrado em reportagem da BBC Brasil, conta que a paixão por frutas exóticas se transformou em hobby, ganha-pão e até fisioterapia – ele nasceu com um distúrbio neuromotor que dificulta seus movimentos.
No sítio, ele cultiva 1.390 espécies, cujas mudas vende para os interessados. O objetivo, segundo ele, é espalhar pelo Brasil moderno as frutas esquecidas pela história da culinária nacional.
“As pessoas até podem ter no quintal, mas não sabem que são frutas comestíveis. Na vida cotidiana, a pessoa pisa em cima da fruta e acha que é veneno. A fruta para elas fica na prateleira do supermercado”, disse à BBC Brasil.
Desde os primeiros resultados de Alencar e Rosalen, o “frutólogo” diz que vem aumentando a procura por informações sobre as espécies por e-mail e pelas redes sociais – Muniz responde pessoalmente a todas as mensagens na página do sítio no Facebook.
Ele diz usá-las frequentemente em sucos, geleias, bolos e até bebidas fermentadas caseiras. Mas tem dificuldade de apostar naquela que pode cair no gosto da população como o novo açaí.
“É uma cilada me perguntar qual a minha preferida, porque gosto de todas. Acho que a grumixama é minha favorita. Mas eu também aprecio muito o araçá-piranga, que as pessoas desprezam, porque tem sabor forte. Mas dá para fazer um sorvete delicioso.”
O que os cientistas da USP e da Unicamp acabam de descobrir, no entanto, Muniz afirma que já sabia.
“Pelo tipo de fruta já dá para saber se ela é boa ou não. A pesquisa preenche as formalidades do ser humano. É para comprovar isto ou aquilo. Mas pela própria cor da fruta já dá para saber se ela tem antioxidante, se é boa para a saúde. A gente vai aprendendo com o tempo.”
COMPLEMENTAÇÃO TÉCNICA DE AUTORIA DO DR. AFONSO CELSO CANDEIRA VALOIS, PESQUISADOR APOSENTADO DA EMBRAPA
A sigla PANC significa as “Plantas Alimentícias Não Convencionais”, que são de enorme utilidade para a segurança alimentar e dos alimentos da humanidade, principalmente para o benefício dos povos mais carentes.
Trata-se de um grupo de plantas, a maioria de ocorrência espontânea em nossos parques, jardins e quintais, muitas vezes chamado de grupo de plantas invasoras, grande parte delas nativas, outras exóticas introduzidas no passado. Essas possuem um valor alimentício enorme, mas por serem desconhecidas pelos leigos, acabam por ser pouco utilizadas. A este grupo de PANC também se agrega outro composto por plantas agrícolas com estruturas descartadas pelos usuários, as quais poderiam também servir de alimento nutritivo, como exemplo claro o da bananeira (Musa spp.) cuja estrutura da flor, que é denominada vulgarmente de “coração”, é normalmente descartada, embora seja rica em fibras, potássio, magnésio, vitaminas A, C, E, carboidrato e proteínas.
As plantas PANC são bastante utilizadas por inúmeras comunidades agrícolas tradicionais, mas de pouca difusão no restante da sociedade, em especial para a população metropolitana, devido à limitação quanto à abrangência da pesquisa e desenvolvimento, assistência técnica e extensão rural, conhecimento, técnica, tecnologia e know how, comunicação, informação na mídia falada, escrita e televisada, cartilhas bem didáticas de aplicação e importância do valor nutritivo, receitas fáceis e saborosas, fazendo com que não sejam de amplo uso.
Em condições in situ e ex situ estes recursos genéticos têm larga aplicação no agronegócio, quando uma determinada planta é retirada das suas condições autóctones e empregada diretamente no sistema produtivo para a obtenção de alimentos. O uso da mandioca (Manihot esculenta Crantz) é um bom exemplo, pois o seu centro de origem é o Brasil, e suas folhas muitas vezes não são utilizadas. A mandioca pode ser considerada uma PANC, quando se observa que suas folhas são pouco utilizadas como alimento, na maior parte do país, mesmo com todo seu potencial: Devido à presença de alto teor de ferro ajuda a evitar a anemia, têm alta quantidade de ácido fólico e vitamina C, ricas em proteínas lisina que ajuda a lutar contra a desnutrição, possui isoflavonas que evita o AVC e, ainda, alta quantidade de magnésio que ajuda a baixar o nível de pressão sanguínea e elimina o risco de doenças reumáticas. Além disso, trata-se de um belo exemplo de planta alimentícia nativa retirada da natureza, domesticada e introduzida magistralmente na agrobiodiversidade (por exemplo, após a obtenção da farinha, esta pode ser guardada por muito tempo em condições ótimas de conservação, para a alimentação sadia paulatina sendo, portanto, uma tecnologia autóctone de elevado valor). Atualmente, a mandioca compõe um seleto conjunto dos 15 principais cultivos que sustentam cerca de 80% da população mundial, estimada em mais de 7,7 bilhões de pessoas! Outros exemplos relevantes estão nas fruteiras, pouco utilizadas fora de sua região de ocorrência, que largamente ocorrem naturalmente na Amazônia, Nordeste, Centro Oeste, Sudeste e Sul do nosso país. Há uma grande lacuna quanto à citação mais pormenorizada dessas plantas benéficas e inclusão no agronegócio dos produtores agrícolas que as conservam e utilizam tais recursos fitogenéticos com visão estratégica, pois esses artífices do bem muitas das vezes ficam na classe dos desconhecidos.
FONTE: Revista Eletrônica RG News.


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