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Jun 2017

Estratégia do uso de plantas transgênicas (En Portugués)

Publicado por

Dr. Afonso Celso Candeira Valois, Pesquisador Aposentado da Embrapa.

Introdução

Em decorrência de informações mais recentes que confirmam a enorme aplicabilidade do uso de plantas transgênicas na agricultura no âmbito mundial, a intenção deste breve artigo é de fortalecer, recordar e ampliar o entendimento sobre a importância desses genótipos para engrandecer ainda mais o agronegócio brasileiro nesta fase que atesta essa atividade como um dos principais fulcros da economia nacional.

Genótipos geneticamente modificados e aplicação

Dentro de uma visão holística quanto à estratégia do uso de plantas transgênicas, o Brasil tem a segunda maior área de cultivos transgênicos , sendo a que mais cresce no mundo. O País fica atrás apenas dos Estados Unidos da América do Norte (EUA) em área de cultivo de organismos geneticamente cultivados (OGM) , cujo país  possui cerca de 23% do total mundial, segundo dados do Relatório do ISAAA (Serviço Internacional de Biotecnologia Agrícola), publicado em 13/02/2014 pelo PORTAL  UOL. Com esse crescimento, a área de OGM brasileira chega a 40,3 milhões de hectares.

No mundo inteiro, os OGM são cultivados em 170 milhões de hectares, afirma o Relatório do ISAAA, entidade fundada em 1991 e que tem como objetivo promover o uso da biotecnologia agrícola, como o cultivo de plantas transgênicas.

Os EUA utilizam OGM em 70,3 milhões de hectares, sendo 40% do total global em 2013. O valor é quase o equivalente à produção da América do Sul inteira. Ainda segundo o Relatório, o Brasil é o que mais cresce em área de produção com OGM, com um aumento de 10% em 2013. Em 2012 e 2013, a área com o uso de OGM aumentou em 3,7 milhões de hectares no Brasil. Proporcionalmente, é mais que o triplo da média mundial de aumento, que foi de 3%.

De acordo com o autor do estudo, Clive James, o mundo em desenvolvimento teve o maior aumento no uso de OGM em 2013. Esse estudo destaca a criação pela BASF de variedades de soja resistentes a agrotóxicos no Brasil. E também, o desenvolvimento “com recursos inteiramente brasileiros” de feijões resistentes a vírus, pela Embrapa, “uma contribuição importante para a sustentabilidade do agronegócio”.

Ainda com relação à soja OGM, a Embrapa lançou em parceria com a BASF, uma nova variedade de soja que facilita o combate a plantas daninhas que já criaram tolerância ao glifosato, a Soja Cultivans. As plântulas têm tolerância a herbicidas do grupo das imidazolinonas!

De acordo com dados posteriores, o Brasil continuou a liderar o aumento do uso de OGM em 2014 “reduzindo consistentemente a distância em relação aos EUA”. Em 2013, os EUA tiveram aumento de apenas 1% na área de cultivo com OGM.

Depois dos EUA e do Brasil vem a Argentina, que produziu OGM em 24,4 milhões de hectares, seguida pela Índia, que cultivou transgênicos em 11 milhões de hectares. Em quinto lugar, deixado para trás no ano passado pela Índia, ficou o Canadá, com 10,8 milhões de hectares de OGM.

Ainda, de acordo com o citado Relatório, o quantitativo mundial subiu de 1,7 milhão de hectares para 175 milhões entre 1996 e 2013, sendo que pelo segundo ano consecutivo, países em desenvolvimento responderam pela maior parte do total observado no período. Juntos, agricultores da América Latina, Ásia e África foram responsáveis por 54% do total de OGM cultivado no Planeta.

No Brasil, até 2012 já haviam sido liberadas pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) 36 variedades transgênicas, sendo 18 de milho, 12 de algodão, cinco de soja e uma de feijão, apresentando vantagens comparativas considerando as características de qualidade nutricional dos produtos, resistência a pragas e doenças, tolerância à seca, herbicidas e a outros estresses ambientais, além da drástica redução da aplicação de defensivos agrícolas na agricultura.

No Brasil é notória a convivência do ser humano com a tecnologia de ponta apropriada como a dos transgênicos  e sustentabilidade ambiental, contribuindo para o aumento da produção e produtividade agrícola, com a obtenção de alimentos com qualidade nutricional, livres de riscos, perigos e danos de natureza física, química, biológica e ambiental, tendo como fulcro a mudança paulatina de hábito, atitude, postura, cultura e costume de todos os atores envolvidos na cadeia produtiva e de consumo dos alimentos.

A aplicação do plano ABC (agricultura de baixo carbono) é um outro exercício constante relevante para o sucesso do agronegócio empresarial e familiar no Brasil, fortalecida pela tecnologia do DNA recombinante, tendo ainda como destaques a agricultura convencional e não convencional (OGM), uso de cultivares com bons valores  genotípicos e fenotípicos (resistência a fatores bióticos e tolerância a limitantes de ordem abiótica, qualidade nutricional etc.), agricultura adaptada às mudanças climáticas, plantio direto, controle de espécies invasoras exóticas danosas, biocontrole de pragas e doenças, bio-fertilização, biorremediação de impedimentos abióticos, agricultura de precisão, permacultura, agricultura orgânica, agricultura ecológica, fixação biológica do nitrogênio, uso de micorrizas arbusculares, sistemas agroflorestais, adubação verde, integração lavoura-pecuária-floresta, métodos de recuperação de  áreas degradadas, uso de tecnologias ambientais, avaliação de riscos,  rotação, consorciação, sucessão e associação de culturas, dentre outras válidas conduções pragmáticas. Para o caso específico da agricultura orgânica, esta não deve ser entendida como antagônica à agricultura dos transgênicos, pois a sua prática usando OGM é uma medida inteligente de usar genótipos com resistência a fatores bióticos e tolerantes a impedimentos de ordem abiótica!

 Outra visão estratégica com gestão tática e operacional é a aplicação da tecnologia do DNA recombinante no Brasil tem resultado no controle bem sucedido da Dengue pela criação e uso do mosquito Aedes  aegypti, vetor do vírus causador, cujos machos (que não transmitem a doença, e sim somente as fêmeas) modificados geneticamente têm sido liberados na natureza de maneira controlada, possibilitando a redução da população do vetor por conterem genes que restringem o sucesso reprodutivo da espécie. Essa aplicação tecnológica tem a sua importância incrementada na medida em que esse mosquito é também o transmissor dos vírus causadores da febre de Chikungunya e Zika, de expressivos riscos, perigos e danos à saúde humana.

Muito se tem escrito sobre a importância dos organismos geneticamente modificados para a agricultura brasileira, o que aliás já é fato considerando os dados já apresentados de que em 2013 o País cultivou cerca de 40 milhões de hectares com OGM, sendo o segundo no nível mundial.  No entanto, os OGM não são panaceia para resolver todas as limitações da agricultura, pois é apenas mais um método de melhoramento genético, mas que pode apresentar inúmeras vantagens comparativas, como a melhoria da qualidade do produto, tolerância à seca, resistência a patógenos etc., trazendo em seu bojo a drástica redução da aplicação de agrotóxicos na agricultura. Até ao momento nenhum efeito pleiotrópico danoso ao ser humano e animal foi identificado a partir do uso de OGM! No entanto, dentre os inúmeros benefícios trazidos por esses produtos, não se pode deixar de citar o efeito intertrófico ou tritrófico, que é quando um organismo interfere na ação de outros dois componentes. Isso já ocorreu no sistema algodão OGM, lagarta e agente de controle biológico. Em resumo, a planta OGM foi atacada por lagarta que morreu, veio o agente de controle biológico que sugou a lagarta e também morreu, sendo reduzido assim, a população desses insetos benéficos. Mas, esse foi um caso isolado, que pode ocorrer, sendo menos drástico do que efetuar um verdadeiro derrame de agrotóxico na agricultura, com efeitos ambientais danosos e na saúde em inúmeros níveis. Afora isso, aqui mesmo no Brasil algumas pessoas contrárias a OGM diziam que uma planta modificada poderia contaminar um plantio de soja. Esqueceram que primeiramente, a soja é uma planta autógama e que no Brasil só é cultivada a espécie Glycine max, de origem chinesa! Mesmo assim, tanto para OGM como para plantas não modificadas, todo cuidado deve ser devotado, por exemplo, em um processo de multiplicação/regeneração de germoplasma vegetal para evitar a contaminação dos acessos. Certa vez soube-se na FAO (em Roma) que a famosa coleção de Vavilov não OGM estava toda contaminada devido ao método de campo inadequado, daí a necessidade do refinamento do processo de multiplicação/regeneração de acessos. Realmente quando chegou-se à Alemanha, em visita a um Centro de Recursos Fitogenéticos, identificou-se inúmeras não-conformidades técnicas no processo de multiplicação/regeneração de acessos de plantas não OGM e logicamente foram feitos comentários alusivos e deixadas orientações técnicas. O que se deve atentar é para não promover a contaminação de acessos tanto entre OGM e não OGM, como também entre OGM e entre não OGM. Em milho, por exemplo, deve-se guardar uma distância mínima de 500 metros entre as parcelas de multiplicação/regeneração de acessos para evitar a contaminação por grão de pólen advindo de outro campo.

Considerações relevantes

A convergência dos tópicos acima enumerados claramente remete para o fato de que as plantas transgênicas amparadas pela biodiversidade, ferramentas biotecnológicas e fundamentos técnico-científicos, além da legislação específica, se constituem em alternativas complementares seguras para o sucesso do agronegócio especialmente para uso na  alimentação humana, sem serem um remédio para todos os óbices da agricultura.  Nesse sentido, a tecnologia do DNA recombinante não se presta para a obtenção de genótipos com resistência horizontal de plantas a doenças, pois essa é geralmente poligênica, o que ainda não é permitido por pela citada tecnologia. Outra inutilidade dessa tecnologia é quanto à obtenção de plantas perenes com resistência vertical a patógenos devido a que mesmo sendo monogênica ou oligogênica, especialidade da tecnologia, pode ser quebrada, inutilizando os gastos efetuados. No referente à expressividade e penetrância do gene a ser empregado na transformação genética é da mais alta utilidade que o mesmo seja forte para explorar a virulência desnecessária do patógeno e que tenha uma ação horizontal no genoma desse organismo, dificultando a seleção direcional, favorecendo a ação da seleção estabilizadora, tendo como consequência uma resistência vertical mais duradoura. Deve-se ainda atentar para a importância da manutenção de áreas de refúgio no controle de pragas pela implantação de parcelas com genótipos não transgênicos nas bordaduras dos cultivos modificados propriamente ditos, com o fito de dificultar a quebra da resistência dos OGM por efeitos das seleções direcional e estabilizadora, o que aliás já aconteceu nos Estados Unidos para o caso da mariposa Monarca. Outro tópico que às vezes as pessoas questionam é quanto ao uso de plantas biorreatoras para a produção de vacinas, pelo temor de o paciente vir a receber superdosagens e como consequência ganhar tolerância a certos medicamentos considerados vitais à saúde. Neste caso, as plantas obtidas devem ser cultivadas em locais especiais, para serem consumidas como medicamento e não como alimento propriamente dito. Outro assunto passivo de controvérsias  é quanto à influência depressiva na biota do solo pela produção de toxinas pelas raízes dos OGM e contaminação de espécies. Este é  um suposto caso de precaução que aliás já ocorre com plantas não-transgênicas, cujo fenômeno é denominado de alelopatia, já referido, que em sua essência significa a influência de uma planta nos vizinhos pela exudação de substâncias tóxicas pelas suas raízes. Outro ponto de destaque é quanto ao risco, perigo e dano do fluxo gênico advindo de OGM poder levar à criação de super plantas daninhas, cujo óbice tecnicamente pode ser evitado pelo uso de métodos como macho-esterilidade e influência citoplasmática. Quanto à suposta influência negativa dos transgênicos na biodiversidade e no meio ambiente, muito pelo contrário, as plantas transgênicas apresentam benefícios na medida em que concorrem para o aumento da variabilidade genética e para a drástica redução da aplicação de agrotóxicos na agricultura, bem como pelo aumento da produção e produtividade das áreas de cultivo evitam que novas áreas sejam desflorestadas para o uso agrícola. Outro assunto merecedor de criteriosa condução é quanto ao emprego de genótipos OGM em programas de melhoramento genético, pois são genes raros e localizados, de baixa frequência, com base genética estreita no genoma, requerendo assim refinados métodos de melhoramento. A crítica de que os organismos transgênicos podem conduzir à limitação no processo evolutivo de espécies por transgredir a barreira do isolamento reprodutivo por poder utilizar os conjuntos gênicos ou gene pool  G1, G2 e G3, isso além de se constituir em enorme vantagem, por exemplo, no sistema patógeno-hospedeiro, na prática têm sido observados casos de coevolução pela perda de resistência do hospedeiro devido à pressão da seleção direcional. No entanto, não se pode deixar de voltar a mencionar o assunto ainda pouco resolvido sobre o fenômeno intertrófico ou tritrófico, apesar de ser um perigo diminuto aos agentes de controle biológico em comparação aos severos efeitos depressivos causados por agrotóxicos nesses indivíduos benéficos.

Conclusão

Em vista do exposto, considerando-se um depoimento imparcial e desmistificador, a tecnologia do DNA recombinante e consequente geração de plantas transgênicas tem possibilitado inúmeros benefícios para o agronegócio e consumidores, com destaque para a significativa redução da aplicação de agrotóxico na agricultura, geração de genótipos com tolerância à seca diante das atuais ameaças das mudanças climáticas, maior velocidade na obtenção de novas plantas apropriadas, aumento da produção e produtividade com redução de custos relativos, melhoria da qualidade dos produtos inclusive para fins medicinais, aumento da variabilidade genética disponível, proteção ambiental e aplicação incluindo a alimentação de populações mais carentes, com evidente incremento da capacidade comparativa e competitiva do agronegócio empresarial e dos benefícios sociais para os agricultores de base familiar.

Para se ter uma noção da real importância do uso de OGMs na agricultura, dados mais recentes (junho/2017) emanados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA- sigla em inglês), nas áreas cultivadas a espetacular situação do uso de plantas geneticamente modificadas naquele País é a seguinte: Soja- 94%; Milho- 92%; Algodão- 94%; Beterraba açucareira- 95%; Canola- 90%; Mamão havaiano- 77%. No nível global: Algodão- 70%; Milho- 33%; Canola- 25%. Para o caso do Brasil, o destaque vai para o cultivo da soja, que já alcança cerca de 80% da área cultivada!

Bibliografia

VALOIS, A. C. C. Biodiversidade, biotecnologia e organismos transgênicos. Texto para Discussão, n. 46. Brasília (DF), Embrapa-Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, 2016. 217 p.



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