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29

Ago 2017

Cajueiros e Cajus

Publicado por

Afonso Celso Candeira Valois, Engenheiro Agrônomo, Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Genética e Melhoramento de Plantas, Pesquisador Aposentado da Embrapa, Ex-Professor Associado da UnB, Ex-Professor Contratado da UEA/CEST, Ex-Secretário Municipal de Meio Ambiente de Tefé (AM).

Contextualização

O cajueiro é uma fruteira de grande importância alimentar, nutricional e agroindustrial, de larga adaptação ao redor do mundo. Da família botânica Anacardiaceae, de nome científico Anacardium occidentale L., a planta é conhecida através do universo pelos seguintes nomes comuns: caju, cajueiro (Brasil), Marañon (Equador), merey (Venezuela), kachui (Filipinas), kazuwa (Zaire), cashew (nome em inglês). A bibliografia cita que a origem brasileira do cajueiro é aceita por quase todos os autores modernos que se dedicaram ao seu estudo. Também parece inquestionável que dentro do território pátrio, o cajueiro tem como centro de origem e de dispersão o litoral nordestino, embora haja ainda a convicção de que o centro de origem seja os lavrados do estado de Roraima, com grande dispersão no município de Normandia. Em alguns países de língua espanhola, como já foi assinalado, é conhecido com o nome de “Marañon”, em clara alusão ao importante estado do Maranhão, de onde provavelmente o cajueiro foi introduzido nesses países. É notável a ocorrência natural de cajueiros na região dos Lençóis Maranhenses, inclusive produzindo frutos demasiado grandes, além de apresentar grande variabilidade genética incluindo a presença de frutos desde muito ácidos a adocicados! Presente em vasta área do litoral brasileiro à época do descobrimento e reconhecido o seu enorme valor alimentício pelos colonizadores, o cajueiro foi disseminado por quase todos os rincões do país. Do Brasil, o cajueiro foi levado pelos portugueses para a Índia em meados do século XVI, iniciando, assim, a sua trajetória pelo mundo. Nas Filipinas essa planta foi introduzida por volta de 1600, no início da dominação espanhola, bem como a sua disseminação para a Indochina e outros países do sudeste asiático, além de um grande número de ilhas do Pacífico, foi consequência direta dos primeiros domínios coloniais, nos séculos XVI e XVII. Também, o cajueiro foi levado para a África na segunda metade do século XVI, espalhando-se em pouco tempo nas costas leste e oeste desse Continente. Depois, o cajueiro atingiu o norte da Austrália, ilhas Fiji, Havaí e sul da Flórida.

Distribuição, Caracterização Geral, Utilização e Valor Nutritivo

De maneira geral, a ocorrência do cajueiro está compreendida entre as latitudes de 30º norte e 30º sul, vegetando em estado natural ou sob cultivo em grande número de países, em muitos dos quais com perfeita adaptação. Um dos mais espetaculares exemplos de adaptação de uma planta ao meio ambiente é proporcionado pelo cajueiro de Pirangi, no estado do Rio Grande do Norte, cuja árvore ocupa uma superfície de 9.000 m².  Das 22 espécies do gênero Anacardium apenas 4 não ocorrem naturalmente no Brasil. Para o caso da A. occidentale (cajueiro), a descrição sucinta encontra-se a seguir: É planta nativa dos campos e dunas da costa norte do Brasil, atingindo 20 metros de altura, sendo proporcional ao diâmetro da copa. Nas terras secas e arenosas do sertão a árvore é baixa, tronco tortuoso e copa irregular, chegando mesmo a rastejar, conforme o fenótipo da planta de Pirangi acima citada.  As folhas são alternas, pecioladas, simples, ovaladas e verde-amareladas e roxo-avermelhadas quando novas. Flores pequenas, curto-pediceladas, pálidas, avermelhadas ou purpurinas, dispostas em amplas panículas terminais, pedunculadas, ramificadas, bracteadas na parte inferior. O fruto, a castanha, é um aquênio reniforme cujo peso pode variar de 3 a 32 gramas, o que permite a seguinte classificação: castanha miúda (até 4g.), castanha pequena (até 8g), castanha média (até 12g), castanha grande (até 16g) e castanha gigante (peso superior a 17g). O tegumento da castanha é liso, coriáceo, cinzento ou verde-acinzentado; o mesocarpo é espesso, alveolado, cheio de um líquido viscoso, vermelho, acre, cáustico e inflamável, comumente chamado de LCC (líquido da casca da castanha), de grande valor comercial. A parte comestível da castanha tem formato rinoide, composta por dois cotilédones brancos, carnosos, oleosos, revestidos por uma película pergaminácea. A castanha prende-se a um pedúnculo hipertrofiado, carnoso, suculento, o caju propriamente dito, muito embora o conjunto hipocarpo-castanho também seja chamado de caju. O pedúnculo hipertrofiado (hipocarpo, pseudo-fruto) apresenta a seguinte variação: tamanho (3 a 20cm de comprimento por 3 a 12cm de largura); peso (média de 15 a 200g, podendo chegar a 650g); formato (conformações piriforme, cilíndrica, musoide, pomoide, cardioide, tronco-cônico, fusiforme, alongado e ficoide são as mais comuns, todas com tipos pequenos, médios e grandes); cor (varia de amarelo-canário, laranja até vermelho vinho, com rajas de outras cores, principalmente esverdeada. Geralmente a floração em zonas do Maranhão pode ocorrer no período de julho a dezembro e a frutificação de setembro a janeiro. Os cajueiros do tipo “anão precoce” florescem e frutificam um mês antes do “comum”, mas com duração superior, podendo ser encontrados frutos no mês de fevereiro. No referente a ocorrência de chuvas, a faixa de 800 a 1.500mm anuais, distribuídos no período de 5 a 7 meses, tem sido vista como a mais adequada nos países produtores. Em regiões muito úmidas a doença fúngica denominada antracnose pode ser um fator limitante do cultivo racional! A temperatura média do ar ideal é de 27ºC para permitir o normal desenvolvimento, floração e frutificação, suportando temperaturas em torno de 35ºC, sendo a planta sensível a temperaturas inferiores a 22ºC. Quanto à exigência de solos tem sido visto o cajueiro vegetando muito bem em solos das classes Podzólico, Latossolo, Regossolo e Areia Quartzosa, tanto distróficos como eutróficos. A exploração nativa e de cultivo racional do cajueiro encontram no mercado nacional e internacional uma ampla e rendosa oportunidade de comercialização dos produtos obtidos. De maneira geral, esses produtos são em forma de LCC, ACC (Amêndoa da Castanha do Caju), como o próprio suco industrializado, rico em vitamina C. Além disso, do pedúnculo são obtidos deliciosos doces caseiros, licores, suco de caju com polpa em suspensão, cajuína (suco límpido de caju), néctar, caju em calda, caju ameixa, doce em massa, geleia, caju cristalizado, farinha, vinho, vinagre, aguardente, xarope e outros variados produtos de larga aceitação para consumo e comercialização, sendo ainda utilizado na alimentação animal. Da castanha podem ainda ser obtidos: creme de amêndoa para alimentação humana, similar à pasta de amendoim; cascas para uso como combustível de caldeiras e película (testa) das amêndoas para a composição de rações para animais ou mesmo como fonte de tanino para utilização em curtumes. Em face da larga distribuição geográfica do cajueiro pelo mundo afora, é grande a competição comercial internacional, o que requer os requintes na aplicação das boas práticas agrícolas (BPA) e boas práticas de fabricação (BPF), para a obtenção de produtos em quantidade e qualidade, livres de perigos físicos, químicos, biológicos e ambientais, do campo à mesa!. No Maranhão, na região do município de Barreirinhas anualmente são obtidas enormes produções de castanha dos exuberantes cajueiros nativos, mas que infelizmente são exportadas para outros estados na condição de produto bruto, desprezando totalmente o pseudofruto, perdendo uma excelente oportunidade de agregar valores para as comunidades locais pela geração de renda, trabalho, emprego, serviços, impostos oficiais e outras oportunidades, pela inexistência de agroindústrias, certificadoras e outros meios de valorização da importante produção autóctone.

 

Composição Química e Valor Nutritivo do Suco de Caju

– sólidos solúveis 10,5%; açúcares em glicose (g/100g) 9,1; prótides Nx6,25 (g/100g) 0,383; acidez em ácido málico (g/100g) 0,327; tanino (g/100g) 0,404; cálcio (mg/100g) 2,5; ferro (mg/100g) 3,4; fósforo (mg/100g) 2,2; vitamina C (mg/100g) 181,9 podendo chegar a 229; valor nutritivo (kcal) 34,3; pH 3,6.

Referência

LIMA, V.P.M.S. (Organizador). A cultura do cajueiro no nordeste do Brasil. Fortaleza, Banco do Nordeste do Brasil. Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste, 1988. 486 p. (Estudos Econômicos e Sociais, 35).



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