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02

Oct 2018

Agroquímicos ou Agrotóxicos? (En Portugués)

Publicado por

Dr. Afonso Celso Candeira Valois, Pesquisador Aposentado da Embrapa.

A Revista Pesquisa FAPESP de setembro de 2018, ano 19, número 271 traz em sua vistosa capa verde a palavra AGROTÓXICOS. Entre as páginas 18 e 24, a matéria tem como título “Agrotóxicos na berlinda”, complementada por outro artigo nas páginas 24-27 intitulado de “Alternativas na mesa”, que se refere à adoção de tecnologias baseadas na agricultura 4.0 como sendo o caminho para reduzir o consumo de pesticidas nas lavouras brasileiras. Ambas reportagens têm valor, porém deixam de melhor esclarecer aos leitores, além de omitirem pontos relevantes para melhor compreensão!

Apresentam várias entrevistas com especialistas, informando sobre a controvérsia do Projeto de Lei n. 6.299/02, que altera o uso de agrotóxicos nas lavouras do país, cuja venda movimenta algo em torno de US$ 10 bilhões por ano, o que representa algo em torno de 20% do mercado global. Enfatiza que o Brasil é uma das maiores potências agrícolas do planeta, mas também é um dos grandes aplicadores de agrotóxicos, substâncias químicas ou biológicas que conferem proteção às lavouras contra o ataque e proliferação de pragas, como insetos, fungos, bactérias, vírus, ácaros, nematoides e ervas daninhas. Na definição de pragas, na visão holística, este autor está de acordo. Porém, na referência a “ervas daninhas”, há discordância, pois o termo correto é “plantas daninhas” por abranger genótipos herbáceos, fibrosos e outros, no geral.

Há ainda a referência de que o aumento do uso desses produtos está relacionado à evolução da produção agrícola brasileira, considerando que a safra de grãos saltou de 149 milhões de toneladas em 2010 para 238 milhões em 2017, além da expansão da monocultura no país, sistema que altera o equilíbrio dos ecossistemas e afeta a biodiversidade, favorecendo o surgimento de pragas e doenças. Vemos que neste ponto, a informação é dúbia, pois junta as duas palavras (pragas e doenças), quando deveria se concentrar simplesmente em “pragas” no sentido holístico, conforme acima, para não confundir aos nobres leitores.

Destaca ainda que em 2017, os agricultores brasileiros usaram 540 mil toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos, cerca de 50% a mais do que em 2010, citando informações advindas do IBAMA, além de didaticamente aclarar que “ingrediente ativo é a substância responsável pela atividade do produto”. No Brasil, cerca de 84,2 mil pessoas sofreram intoxicação após exposição a defensivos agrícolas entre 2007 e 2015, uma média de 25 intoxicações por dia, conforme um relatório credenciado expedido pelo Ministério da Saúde. Vale ressaltar que em levantamento efetuado pelo autor deste texto em 09/01/2007, no Brasil morriam cerca de 5 mil produtores por ano intoxicados por defensivos agrícolas, sendo que o país só perdia no montante dessas aplicações para a Holanda, Bélgica, Itália, Grécia, Alemanha, França e Reino Unido (Grã Bretanha, Irlanda, País de Gales e Escócia). A própria informação da Revista FAPESP atesta que o uso de agrotóxicos no Brasil é bem menor em relação ao praticado na França, Reino Unido, Japão e outraos países quando for relacionado o volume de defensivos com a área plantada ou a produção agrícola. No nosso país, o agronegócio é bastante rendoso, correspondendo a cerca de 25% do PIB!

Na qualidade de uma drástica história, certa vez o autor identificou um operário rural que aplicava rotineiramente defensivos em viveiros de plantas em direção oposta aos ventos, recebia diretamente o fluxo dos agrotóxicos e por isto tinha o apelido de “niquelado”. Após, certo tempo depois o referido operário entrou em óbito fortemente intoxicado pelo princípio ativo do fungicida que sempre aplicava sem os devidos cuidados no uso de EPI! A bem da verdade, a Revista se preocupou com isto e apontou a BPA recomendada!

As intoxicações ocasionadas por agrotóxicos no Brasil perdem para as causadas por entorpecentes, medicamentos mal utilizados e produtos de limpeza caseira, principalmente, conforme observou o autor, que também tem apontado em seus artigos que o uso de plantas transgênicas na agricultura tem reduzido drasticamente o uso de agrotóxico, constatação omitida nos artigos da Revista FAPESP acima citados! O melhoramento genético das plantas é uma força técnico-científica poderosa para o sucesso do agronegócio, no caminho do aumento consubstancial da produção e produtividade das cultivares (o artigo da Revista ainda cita erroneamente “dos cultivares”), além de possibilitar a proteção ambiental, redução da aplicação de agrotóxicos, fertilizantes e corretivos, considerando uma agricultura de precisão, termo técnico também não citado nos artigos da Revista!

Além disto, para ampliar a discussão, há referência de que a análise de riscos é melhor que a análise de perigos, quando na realidade o melhor mesmo é proceder à análise de riscos, perigos e danos no conjunto (faltou o aprimoramento da informação). Há ainda referência à agroecologia e agricultura orgânica e suas vantagens e desvantagens, que, no entanto“per se”, atualmente são incapazes de substituir a força da agricultura convencional e não convencional na totalidade (estão muito longe disto). Foi olvidada a permacultura, bem como, a integração lavoura-pecuária-florestas, sistemas agroflorestais, plantio direto, fixação biológica do nitrogênio e outras técnicas incluídas no sistema ABC, capazes de mitigar a aplicação agrotóxicos na agricultura. Em seu artigo de título “Tecnologias Ambientais”, o autor deste texto incrementa a discussão neste sentido!

Neste ponto do singelo texto entra a questão exposta no título.

A Revista informa que atualmente, a legislação brasileira refere-se às substâncias usadas no combate a pragas agrícolas como agrotóxicos, termo cunhado em 1977 pela ESALQ-USP, em Piracicaba (SP). Naquela época, várias palavras identificavam esses produtos químicos, como praguicida, pesticida, remédio, veneno e defensivo agrícola, muitas das vezes considerados agroquímicos. Quem critica o Projeto de Lei citado neste texto afirma que a mudança na nomenclatura tem por objetivo desfazer a associação entre os pesticidas, a toxicidade, os riscos à saúde e ao ambiente associados a eles.

Diante da confusão de termos técnicos, o autor deste texto costuma diferenciar a palavra “agroquímicos” de “agrotóxicos”, pois de acordo com os especialista em solos e nutrição de plantas, um adubo ou mesmo um corretivo, que são agroquímicos, não podem ser confundidos na mesma linha de agrotóxicos ou pesticidas (fungicidas, inseticidas, nematicidas, herbicidas etc.), o que pode ajudar na compreensão por parte dos leitores!

No mais, as duas matérias publicadas na Revista PAPESP são instrutivas e merecem crédito, levando em conta a adoção dos aspectos aqui levantados e sugeridos!



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